Ser professor em tempos que parecem desistir do pensamento
vejo a docência como um lugar de resistência

Neste Dia dos Professores, fico pensando no quanto as homenagens, embora bonitas e afetuosas, precisam encontrar alguma continuidade depois que a data passa. Gosto de receber o carinho dos alunos, de reencontrar aqueles que seguiram seus caminhos e de perceber que alguma coisa do que vivemos em sala de aula permaneceu em suas vidas, às vezes uma conversa de que eu sequer me lembrava, uma pergunta, um incentivo dado num dia difícil. Há uma alegria muito própria nesse reconhecimento, mas também um incômodo quando vejo a importância do professor ser tão celebrada nos discursos e tão pouco considerada nas decisões que atravessam nosso cotidiano.
Quem vive a escola sabe que o amor pela educação convive com um cansaço que nem sempre conseguimos explicar a quem está de fora. Levamos para casa atividades, planejamentos, preocupações com estudantes e situações que continuam nos acompanhando muito depois do fim do expediente, enquanto tentamos encontrar tempo para a família, para estudar, descansar e existir para além do trabalho. Quando ouvimos que somos fundamentais para o futuro, é difícil não perguntar por que o nosso presente continua sendo tratado com tamanha negligência.
Tenho pensado especialmente no desafio de ensinar num tempo em que a própria relação com o conhecimento parece adoecida. Sempre houve mentira, manipulação e disputa em torno da verdade, mas impressiona a naturalidade com que hoje se sustenta uma falsidade mesmo depois de ela ter sido demonstrada, como se reconhecer um erro fosse uma traição ao grupo ao qual se pertence. Dependendo de quem fala e de quem será atingido, aceita-se o absurdo, compartilha-se a violência e ainda se reivindica o direito de não ser questionado, enquanto aquele que pede uma fonte ou tenta apresentar a complexidade do problema acaba tratado como inconveniente.
É nesse ambiente que entramos em sala de aula e convidamos alguém a ler com atenção, acompanhar um argumento, examinar uma evidência e admitir a possibilidade de estar enganado. Parece pouco quando dito assim, mas há uma dificuldade enorme nesse convite, porque aprender nos desloca, exige que suportemos alguma insegurança e que reconheçamos os limites daquilo que já sabemos. Quem chega inteiramente protegido por suas certezas encontra pouco espaço para escutar, sobretudo quando essas certezas oferecem o conforto de pertencer a um grupo e a satisfação de ter alguém a quem culpar.
A pós-verdade se alimenta dessa disposição, fazendo com que o compromisso com os fatos seja condicionado à conveniência das nossas crenças. Uma informação passa a valer pelo efeito que produz, pela indignação que desperta ou pela vantagem que oferece numa disputa, enquanto sua consistência vai ficando em segundo plano. Nas redes, onde tanta coisa nos alcança antes que possamos pensar, o espetáculo frequentemente consegue uma adesão que um discurso cuidadoso dificilmente obterá na mesma velocidade, e vamos nos habituando a reagir a tudo sem necessariamente compreender o que estamos ajudando a espalhar.
Não olho para isso como quem acredita que os professores estejam acima dessas contradições, porque também fazemos parte desse mundo, temos nossas paixões, nossas resistências e nossos pontos cegos. Justamente por isso, ensinar exige de nós uma vigilância sobre a própria maneira de pensar, inclusive para que a defesa da formação crítica não se transforme no desejo de encontrar nos estudantes apenas a confirmação das nossas posições. O trabalho se torna mais fecundo quando conseguimos oferecer condições para que eles construam argumentos, nos interroguem e percebam que a liberdade de pensamento envolve responsabilidade pelo que se diz.
Essa responsabilidade fica ainda mais necessária diante do negacionismo, do desprezo pela ciência e dos ataques aos saberes que não se acomodam às conveniências de determinados grupos. Preocupa-me ver a universidade pública apresentada como inimiga, a pesquisa tratada como desperdício e as humanidades ridicularizadas por quem parece incapaz de reconhecer valor em algo que não produza lucro imediato. Há problemas nas universidades e na escola, evidentemente, e devemos discuti-los com seriedade, mas o desejo de aperfeiçoar uma instituição exige conhecê-la, compreender sua função e assumir algum compromisso com aquilo que ela pode oferecer à sociedade.
Quando a desqualificação ocupa o lugar desse debate, perde-se muito mais do que o prestígio de uma profissão. Vai se enfraquecendo a possibilidade de construir referências comuns para a vida pública, porque uma sociedade que despreza os procedimentos pelos quais o conhecimento é produzido se torna mais vulnerável a quem oferece explicações fáceis e certezas convenientes. A ciência pode ser revista, e essa abertura faz parte de seu rigor; transformar tal característica em motivo para desacreditar qualquer pesquisa revela o quanto ainda precisamos aprender sobre o que significa conhecer.
Ao mesmo tempo que enfrentamos esse ambiente, convivemos com uma organização do trabalho que parece deixar cada vez menos espaço para o próprio exercício de ensinar. A lógica capitalista que atravessa a educação vai impondo sua linguagem, suas prioridades e seus critérios de reconhecimento, até que começamos a falar dos estudantes como resultados e de nós mesmos como responsáveis por entregar desempenhos. Aos poucos, o que não cabe numa meta ou não aparece num indicador corre o risco de ser tratado como secundário, embora seja justamente aí que muitas vezes estejam as experiências mais importantes da formação humana.
Na prática, isso chega como uma sucessão de plataformas, formulários, relatórios, registros e cobranças que disputam o tempo necessário para preparar uma boa aula, estudar um assunto ou acompanhar um aluno com mais cuidado. Como coordenador escolar, sei que organizar, registrar e avaliar fazem parte do trabalho e podem nos ajudar a compreender o que precisa ser feito, mas também percebo como esses procedimentos perdem o sentido quando a comprovação da atividade se torna mais importante do que a atividade realizada. Acabamos pressionados a demonstrar continuamente que estamos trabalhando, mesmo quando essa demonstração consome as condições de fazer melhor o nosso trabalho.
O mais difícil é perceber como essa cobrança vai sendo incorporada por nós, de modo que problemas produzidos por condições estruturais começam a ser vividos como fracassos pessoais. Se o estudante não aprende, pensamos que deveríamos ter encontrado outra estratégia; se não participa, que faltou criatividade; se os resultados não aparecem, que talvez não tenhamos nos dedicado o suficiente. Claro que precisamos avaliar nossa prática e assumir nossas responsabilidades, mas há algo profundamente injusto em exigir que o empenho individual resolva a desigualdade, a precariedade e todas as ausências que chegam à escola.
Quando o professor adoece nesse processo, ainda é comum que a resposta se limite a recomendar que ele cuide melhor de si, como se fosse possível compreender seu sofrimento sem olhar para a jornada, as cobranças e a falta de condições para realizar aquilo que considera importante. Falar de cuidado exige enfrentar também a organização do trabalho, pois o descanso não pode depender apenas da capacidade de cada um de administrar uma rotina que já se tornou excessiva.
A tudo isso se soma a pressa do nosso tempo, essa exigência de que tudo seja imediatamente interessante, compreensível e útil. Tenho a impressão de que estamos perdendo a familiaridade com a demora necessária para elaborar alguma coisa, como se a dificuldade de um texto ou o esforço exigido por um conceito fossem sinais de que há algo errado com eles. Na educação, porém, lidamos diariamente com aprendizagens que precisam de aproximações sucessivas, com perguntas que amadurecem aos poucos e com estudantes que só conseguem participar depois de construir alguma confiança no ambiente em que estão.
Gosto de uma aula viva, gosto do diálogo, do humor e das possibilidades que a arte e a tecnologia oferecem, mas me preocupa a expectativa de que o professor consiga manter todos permanentemente entretidos, competindo com mecanismos de captura da atenção que movimentam uma indústria inteira. Há um valor formativo em aprender a permanecer diante de algo que ainda não compreendemos, sustentando a atenção para além do primeiro impulso de abandonar. Quem já voltou a um livro e encontrou nele o que antes não conseguia perceber conhece a beleza dessa experiência e sabe o quanto ela depende de tempo.
É por essas razões que vejo a docência como um lugar de resistência, embora tenha cuidado com o uso dessa palavra, porque também podemos romantizar o sofrimento e fazer do professor alguém que deve suportar tudo. Penso numa resistência que acontece dentro do trabalho e que inclui a luta por condições dignas para realizá-lo, presente tanto na defesa da educação pública quanto no esforço de não deixar uma discussão terminar na humilhação de alguém, de perguntar de onde veio uma informação ou de ajudar uma turma a perceber aquilo que uma explicação simplista deixou de fora.
Como professor de Filosofia, encontro muito sentido nesse exercício de criar espaço para perguntas que o cotidiano apressado costuma evitar. Interessa-me que os estudantes possam compreender o mundo em que vivem, reconhecer os discursos que os atravessam e pensar sobre os desejos, os medos e as expectativas que vão orientando suas escolhas. A formação crítica ganha corpo quando alcança essas experiências, quando ajuda alguém a perceber que sua vida tem uma história e está ligada a relações sociais que podem ser interrogadas e transformadas.
E é nesse lugar, com todas as dificuldades que ele carrega, que ainda gosto de estar. Há algo que me toca quando um estudante se sente à vontade para perguntar, quando encontra palavras para uma inquietação ou quando começa a enxergar uma possibilidade que antes lhe parecia distante. Nem sempre conseguimos acompanhar o que acontece depois, e talvez uma parte da beleza de ensinar esteja nessa participação em caminhos que não nos pertencem, embora guardem alguma coisa do encontro que tivemos.
Meu amor pela docência passa por essas experiências e também me dá razões para cobrar mudanças, porque quero continuar ensinando sem que isso exija abrir mão da saúde, do descanso e da vida que existe fora da escola. Quero que os professores possam estudar, criar, discordar e exercer sua autonomia com o amparo de condições concretas, em vez de depender continuamente de um esforço que ultrapassa aquilo que seria razoável exigir de qualquer trabalhador.
Hoje, ao receber e oferecer homenagens aos colegas, penso no quanto precisamos cuidar desse desejo de ensinar para que ele não seja consumido pelas condições em que tentamos realizá-lo. Continuo acreditando na educação, mesmo nos dias em que saio da escola cansado e cheio de dúvidas, porque ainda encontro nesse trabalho a possibilidade de participar de uma vida comum em que as pessoas possam pensar com mais liberdade, compreender melhor o que vivem e recusar as violências que lhes são apresentadas como naturais. É por isso que insisto, e é também por amar esse lugar que não consigo me contentar apenas com as belas palavras que nos dedicam em outubro.



