21 de janeiro

Ivo Fernandes • 21 de janeiro de 2026

Quando a fé pede silêncio, memória e responsabilidade

O dia 21 de janeiro não é apenas uma data no calendário civil. É uma ferida aberta na história brasileira. É também um espelho incômodo diante do qual somos obrigados a nos colocar. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa existe porque, apesar de nos orgulharmos da diversidade cultural e espiritual, seguimos convivendo com práticas de ódio, perseguição e violência — muitas vezes legitimadas em nome de Deus.


A escolha dessa data carrega um peso que não é simbólico apenas: é trágico, concreto, histórico. Ela remete à memória de Mãe Gilda de Ogum, ialorixá do Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador. Em 1999, sua imagem foi usada de forma criminosa em campanhas de difamação que demonizavam o Candomblé. Não foi um ataque isolado, foi uma pedagogia do ódio. Vieram as agressões, os insultos, a invasão simbólica e material do terreiro, a violência contra sua família. O que se seguiu foi um colapso moral e psíquico que resultou em um infarto fulminante. Mãe Gilda morreu em 21 de janeiro. O ódio matou. A intolerância matou. A religião, quando se torna ideologia de exclusão, matou.


Combater a intolerância religiosa não é apenas defender o direito do outro crer diferente. É reconhecer que toda fé que precisa destruir outra para se afirmar já perdeu sua alma. Onde a religião vira arma, Deus já foi evacuado.


Falo disso também a partir de mim. Eu nasci em um contexto de sincretismo religioso. E isso não foi um detalhe folclórico da minha infância — foi formativo, estruturante, decisivo. Minha mãe biológica, pouco tempo após o meu nascimento, tornou-se evangélica e, anos depois, uma líder nessa tradição. Minha mãe adotiva era uma católica profundamente sincrética. Na casa onde vivi, coexistiam a fé católica, os ritos da umbanda, as mesas espíritas e a crença evangélica. Eu vi. Eu vivi. Eu participei. E, sobretudo, eu aprendi.


Na adolescência, envolvi-me intensamente com a fé protestante. Por muito tempo, isso em mim foi atravessado por vergonha — não da fé em si, mas da perseguição que esse mesmo grupo, em muitos contextos, reproduzia contra outras expressões religiosas. Já na juventude, aproximei-me das religiões orientais. Ainda assim, meu caminho reflexivo permaneceu orbitando o espectro protestante: por um lado, pela densidade teológica; por outro, pelo misticismo pentecostal, que sempre me tocou em sua dimensão existencial. Mas a corrupção progressiva de setores inteiros dessas igrejas — ética, espiritual e politicamente — foi me afastando. Não por rebeldia, mas por consciência.


Aos 18 anos iniciei meus estudos teológicos. Já era líder de grupo, e rapidamente segui o caminho que minha mãe e minhas irmãs já trilhavam: a liderança religiosa. Muito do que vivi ali foi bênção, aprendizado, cuidado. Mas havia algo que nunca se ajustou em mim: a ideia de exclusividade religiosa. Essa lógica do “só nós”, do “fora daqui não há verdade”, do “Deus está do nosso lado contra os outros”. Hoje estou convencido de que essa é uma das raízes ideológicas mais profundas da intolerância religiosa.


O resultado foi previsível: conflitos, tensões, turbulências com outras lideranças e com instituições onde lecionei teologia. Aos poucos, ficou claro que meu caminho não era ali. Transitei para a filosofia e para a psicanálise, sem romper imediatamente com a comunidade de fé. Mas a cada passo se tornava mais evidente que eu precisava me afastar de tudo aquilo que não carregava o espírito do pluralismo. Minha última parada institucional foi em um movimento de fé marcado por uma espiritualidade inclusiva, aberta e profundamente crítica aos mecanismos de controle religioso. Ali encontrei respiro, maturidade e uma forma mais leve de permanecer no Evangelho sem precisar violentar minha consciência. Ainda assim, meu próprio caminho continuava me conduzindo para uma vivência cada vez mais plural, menos institucional e mais existencial. Depois de muitos processos — internos, éticos e espirituais — cheguei ao lugar onde hoje habito: vivendo, ensinando, confessando e partilhando a fé em uma comunidade pluralista, onde o sagrado não exige identidade fixa, mas responsabilidade, escuta e humanidade.


Hoje, quando falo contra a intolerância religiosa, não falo de fora. Falo de dentro. Falo como quem conhece o sagrado por muitas portas. Falo como quem aprendeu que Deus não cabe em fronteiras doutrinárias, nem se deixa sequestrar por discursos de poder. Falo como quem sabe que toda experiência religiosa que não suporta o outro diferente se transforma em violência simbólica — e, muitas vezes, física.


O 21 de janeiro nos exige mais do que postagens bem-intencionadas. Ele nos exige revisão. Conversão ética. Desmontagem dos discursos que sustentam o ódio. Ele nos chama a lembrar que fé não é instrumento de guerra cultural, mas possibilidade de encontro. Que espiritualidade não é identidade armada, mas caminho de humanidade.


Que a memória de Mãe Gilda não seja apenas lembrada, mas escutada. E que, ao escutá-la, tenhamos coragem de abandonar toda certeza religiosa que precise ferir alguém para continuar existindo.


Ivo Fernandes


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