O livro dos dias

Ivo Fernandes • 14 de janeiro de 2026

Uma crônica de filiação

Numa tarde não programada, sentei-me num café e esperei. Não esperava grandes coisas, talvez uma conversa breve, dessas que se encerram antes de começarem. Mas, para minha alegria, ela se estendeu por horas. Ali, frente a frente, pudemos mais uma vez falar da vida, dos afetos, do tempo.


E quem estava diante de mim já não era uma criança. Apesar de em mim o afeto de cuidado ainda ser dominante, havia ali um jovem. Alguém que, como uma borboleta, metáfora que surgiu naturalmente naquela conversa, começava a sair do casulo. Ou das caixas. Outra imagem que apareceu, quase sem aviso, num diálogo que foi se tornando, sem intenção, psicanalítico.


A conversa começou com sua reclamação sobre a sessão de análise daquele dia. Falamos de análise, de Jacques Lacan, e eu falei de mim. E foi assim, nesse entrelaçamento de escuta e palavra, que chegamos ao tema da transição. Era 12 de janeiro, dois dias antes dos seus dezoito anos.


Entre tantas coisas, falamos da tristeza, dessa velha companheira que, de modos diferentes, esteve presente na vida de ambos. Falamos daquele momento em que nos cansamos de ser tristes, mas também reconhecemos que não se abandona uma velha amiga de qualquer jeito. Compartilhei um pouco da minha própria relação com a tristeza: as poesias, as músicas. Até hoje gostamos das canções tristes e as cantamos com uma alegria própria. Porque a tristeza, quando atravessada, é criativa. E não só ela: todos os afetos podem ser potentes. Somos nós que os potencializamos.


Contei-lhe da minha relação com A Tempestade, álbum que me acompanhou por anos como um verdadeiro mapa afetivo, e que ainda hoje permanece entre os meus preferidos. E, como na canção Natália, falamos de tudo: política, doença, gênero, vida e morte. Decidimos ali que queríamos ser felizes. Acreditar num novo dia. Desejar que o fim do mundo fosse adiado para que pudéssemos viver mais desta vida.


Falei-lhe dos meus amores, de sua mãe, do amor que hoje me habita. Dos desencontros e do que se aprende com eles. E ali sentimos algo precioso: éramos livres porque tínhamos coragem de pensar. Essa sempre foi nossa aventura, nossa fantasia. Falamos de trabalho, de faculdade, de destino.


Mas o centro da conversa foi a transição. A saída de um lugar fixado na tristeza. Apresentei-lhe então a canção Via Láctea e contei como ela foi, durante muito tempo, o enredo da minha própria vida. Falamos dos versos, da tentativa dos amigos de nos arrancarem dali, da insistência da tristeza em ficar. Falamos da doença, da minha doença. Das comparações com os mais alegres. Mas, como no próprio álbum, aquela não era a última música.


Sem citar diretamente, falávamos de Soul Parsifal. Era disso que se tratava: um caminho em busca de libertação. Quase como uma ópera, à maneira de Richard Wagner, onde dor e beleza caminham juntas.


Estávamos ali, um pai e um filho, aprendendo a ser livres. Aprendendo a amar com serenidade. “Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom.” E o que desejo é que conversas como essa sejam estrelas a guiá-lo. Que faça das alfazemas bordados. Que aproveite as manhãs, os anis, as hortelãs, os cestos de flores, os jardins e as canções. Que seja feliz. Que tenha amor. Que tenha coragem. Que saiba quem és. Que guarde uma oração no peito.


Esse é meu desejo, feito de palavras roubadas da infância, das canções que amei, mas profundamente verdadeiro.


A grandeza daquele encontro, daquela conversa e daquele álbum é que ali tudo estava combinado. Como em Primeiro de Julho, falávamos de um modo de ser que ultrapassa as limitações de gênero e orientação. Somos mais amplos. Somos tudo: o humano e o divino, o profano e o sagrado, o feminino e o masculino, o passado e o presente.


Lembrei das nossas primeiras conversas, anos atrás. Do seu jeito infantil e misterioso de lidar com temas como a morte. Da sua timidez e gentileza. Do seu ser fantasioso e mágico. Lembrei que toda a sua história permanece, que o nome antigo não desaparece porque histórias não se apagam, mesmo quando saem de uma certidão. Nada desaparece de nós.


Se nossas primeiras conversas aconteceram caminhando numa praia ao fim da tarde, e esta se deu num café, a verdade que nos cercava era a mesma: somos pai e filho. E isso ninguém muda. Ele não tinha só a mim. Havia uma mãe esperando, irmãs esperando, amigos verdadeiros esperando. E nossos dias ainda são muitos.


Aos quinze anos, nomeei meus diários de Livro dos Dias. Última faixa de A Tempestade. E esse ainda é o eixo das minhas poesias mais íntimas. Naquela conversa, vivíamos nossa própria travessia. Mas, diferente do passado, não havia ausência de encanto. Recuperávamos algo do sagrado. E o coração caminhava para um descanso até então desconhecido.


Temos um ao outro. Aceitamo-nos pelos nossos novos nomes. E temos ainda todo o tempo do mundo. Não escondemos a tristeza, mas nos despedimos dela como senhora dos nossos atos. Fechamos o catálogo dos erros e avançamos.


Agora, o Livro dos Dias é dele. Eu já atravessei outros mares.
Os mares de mim.


Talvez toda pessoa carregue também um livro assim, mesmo sem nomeá-lo. Um livro escrito com encontros não planejados, conversas adiadas, músicas que salvaram dias inteiros e tristezas que ensinaram a olhar o mundo com mais cuidado. Talvez cada um de nós esteja, em algum ponto da vida, entre um nome que já não serve e outro que ainda não ousamos dizer. Entre um casulo confortável e o medo de voar. Se há algo que aprendi naquela tarde é que ninguém escreve o livro dos dias sozinho, e que sempre há tempo para abrir uma nova página.


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