A padroeira e a tentação do poder

Ivo Fernandes • 29 de setembro de 2026

Quando a divergência religiosa se transforma em projeto de dominação

A polêmica em torno de Nossa Senhora Aparecida me devolveu a uma memória que antecede qualquer disputa eleitoral. Desde a infância, nas igrejas evangélicas que frequentei, ouvi interpretações que apresentavam a Igreja Católica como a grande prostituta do Apocalipse, o papa como figura da besta e as imagens religiosas como objetos de idolatria, quando não como instrumentos demoníacos. Não eram comentários ocasionais, mas ensinamentos que ajudavam a organizar nossa percepção do mundo: de um lado, os que possuíam a verdade; do outro, os que estavam enganados e precisavam ser resgatados.


Não pretendo transformar minha experiência numa descrição de todos os evangélicos, o que afirmo é que ninguém deveria apagar essa tradição de hostilidade como se ela tivesse sido inventada agora por adversários políticos, negar sua existência é desonesto; atribuí-la indistintamente a cada protestante também seria. Quando comecei a estudar teologia e filosofia, encontrei um universo muito maior do que aquele que havia conhecido nos púlpitos: pensamento crítico, interlocução com a cultura e possibilidades de convivência que não exigiam demonizar a fé alheia.


É a partir dessa experiência que leio o debate atual, e justamente porque considero grave o problema, não preciso de uma informação falsa para sustentá-lo. A apuração não encontrou declaração direta ou iniciativa clara de Flávio Bolsonaro para retirar de Aparecida o título de padroeira, a proposta evocada nas redes, apresentada por Victório Galli em 2007, pretendia substituir a expressão “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos” e foi arquivada em 2008, associá-la automaticamente ao candidato é uma distorção. A crítica ao uso político da fé perde autoridade quando aceita a desinformação como ferramenta conveniente.


Reconhecer isso não encerra a discussão, pelo contrário, permite formular a pergunta que realmente importa: por que a hipótese de um confronto religioso conduzido a partir do poder encontra terreno tão fértil entre nós? Uma notícia falsa pode explorar medos produzidos por experiências reais, embora esses medos jamais constituam prova de uma acusação específica. A hostilidade contra o catolicismo possui registros públicos, em 1995, o bispo Sérgio von Helder, da Igreja Universal, agrediu uma imagem de Aparecida num programa de televisão, no episódio conhecido como “chute na santa”, em outubro de 2023, o pastor Sérgio Fernandes, em Bastos, chamou uma imagem da padroeira de “satanás fantasiado de azul”; depois da repercussão, pediu desculpas à comunidade católica. 


Há também material de pregação e ensino disponível na internet que identifica a Igreja Católica com a prostituta do Apocalipse, como o comentário de Gerald S. Smith publicado pelo portal Palavra Prudente. São exemplos verificáveis de uma linguagem que atravessa púlpitos, páginas religiosas e vídeos, e que não deve ser confundida com a posição de todo o campo evangélico. Essa linguagem também aparece no universo da Lagoinha. Na dissertação Música, igreja e juventude, defendida na Universidade Metodista de São Paulo em 2014, Flávia Medeiros analisa o trabalho do Diante do Trono, vinculado à igreja, e registra uma oração de Ana Paula Valadão na gravação de Nos braços do Pai, de 2002. A pesquisadora identifica críticas às festas populares e à Igreja Católica; na passagem transcrita, a expressão “idolatria a imagens de barro” aparece numa enumeração que inclui prostituição, pornografia e perversão sexual. Minha leitura é que essa proximidade discursiva insere a devoção a imagens num quadro de degradação moral a ser combatida. 


Na Comunidade das Nações, o exemplo documentado envolve seu fundador, o bispo JB Carvalho, reportagem de Matheus Leitão, no Metrópoles, examina reproduções de trechos atribuídos a seu livro A Bomba: A verdade pode ser explosiva, publicado em 2001, nas quais ele condena o culto à Rainha dos Céus e relaciona a devoção mariana a antigos cultos pagãos. A reportagem ressalva que a suposta origem dessa devoção no culto a Semíramis não é um fato histórico estabelecido. Trata-se de uma interpretação polêmica do autor, que não pode ser apresentada como conclusão da história das religiões. Outra reportagem, do Diário do Centro do Mundo, reproduz passagens atribuídas à mesma obra em que a Igreja Católica é associada à prostituição espiritual e Aparecida é descrita como uma deusa. A relevância política desse repertório cresce quando lembramos que Flávio Bolsonaro e sua esposa foram batizados na Comunidade das Nações em 2024. Esse vínculo não prova que o candidato endosse cada afirmação do bispo, mas torna pertinente examinar a relação entre formação religiosa, linguagem de exclusão e projetos de poder.


Uma coisa é argumentar contra a veneração de imagens; outra é apresentar a devoção do vizinho como contato com o inferno. Na primeira situação, existe uma controvérsia teológica; na segunda, constrói-se uma relação de suspeita com pessoas, símbolos e comunidades. Um católico que reza diante de Aparecida não se torna, por isso, adorador de um demônio. O próprio Catecismo distingue a veneração das imagens da adoração devida a Deus. Pode-se discordar dessa distinção, mas uma discordância intelectualmente honesta precisa enfrentar aquilo que o outro efetivamente afirma, em vez de lhe atribuir uma crença que ele rejeita.


O movimento contrário também merece atenção, a apologética católica digital contém discursos que reduzem o protestantismo ao erro e à ruptura culpável. Na apresentação do programa “O protestantismo”, por exemplo, o padre Paulo Ricardo associa a discussão da Reforma à questão do orgulho e pergunta se o protestantismo seria soberbo por princípio. Em outro texto de seu portal, afirma a impossibilidade de um verdadeiro cristianismo fora da religião católica. É preciso reconhecer essa linguagem de desqualificação, sem equiparar automaticamente uma afirmação de exclusividade doutrinária a uma agressão contra símbolos religiosos.


Não se trata de distribuir culpas em quantidades iguais, trata-se de sustentar o mesmo critério: nenhuma comunidade ganha legitimidade para humilhar outra porque também foi atacada. O sofrimento dos católicos diante da demonização de seus símbolos não autoriza o desprezo pelos evangélicos; o histórico de discriminação contra protestantes não absolve pastores que alimentam a hostilidade contra o catolicismo. Tampouco a rivalidade entre cristãos pode apagar a vulnerabilidade das religiões de matriz africana, frequentemente colocadas fora da própria ideia de fé respeitável.


Minha crítica se dirige às apropriações em que a expectativa religiosa, a linguagem da guerra espiritual e a conquista de posições políticas passam a se reforçar. Quando uma eleição é apresentada como batalha entre Deus e Satanás, o adversário deixa de ser alguém com quem se disputa um projeto de sociedade e passa a ocupar o lugar de ameaça espiritual. Nesse quadro, negociar pode parecer traição, reconhecer direitos pode parecer concessão ao mal e aceitar a alternância de poder pode parecer derrota de Deus. Esse é o mecanismo que considero perigoso, não uma identidade religiosa tomada em bloco.


A sociologia ajuda a deslocar o problema das intenções individuais para as relações de poder. Ricardo Mariano mostrou como a concorrência entre católicos e pentecostais ultrapassou o campo religioso e alcançou as esferas midiática e político-partidária. Já a pesquisa de Maria das Dores Campos Machado e Joanildo Burity sobre lideranças pentecostais identificou posições diferentes acerca da participação política, inclusive críticas à ideia de estabelecer um reino cristão no Brasil. A diversidade existe dentro das igrejas; apagá-la favorece justamente os dirigentes que pretendem falar em nome de todos.


Não considero ilegítimo que pessoas religiosas participem da política, elas têm o mesmo direito de organizar movimentos, defender propostas e disputar eleições que qualquer cidadão. O problema aparece quando a autoridade espiritual é utilizada para reduzir a autonomia do fiel, converter obediência religiosa em disciplina eleitoral e apresentar os interesses de uma liderança como vontade de Deus. É nesse sentido que vejo certas igrejas funcionando como estruturas de recrutamento político. A comunidade que poderia acolher a angústia, sustentar vínculos e oferecer espaço de reflexão passa a organizar fidelidades em torno de candidatos e projetos de poder. O púlpito se converte em palanque, enquanto o temor de desobedecer a Deus ajuda a conter perguntas que deveriam ser dirigidas a homens. Não descrevo todas as igrejas, mas uma transformação que precisa ser enfrentada justamente por quem se importa com o Evangelho.


Sob uma leitura psicanalítica, podemos perguntar o que se obtém subjetivamente nessa operação. A promessa de pertencer ao grupo dos escolhidos pode oferecer proteção contra a incerteza, e a figura do inimigo pode reunir, fora de nós, aquilo que não suportamos reconhecer em nossa própria experiência. Quando a comunidade depende da ameaça para manter sua coesão, o outro precisa permanecer perigoso. A fé corre o risco de se tornar uma autorização para não escutar.


A história católica impede que essa crítica seja confortável para apenas um lado. Tribunais inquisitoriais e autoridades civis participaram de mecanismos de perseguição e punição de dissidentes, inclusive com desfechos fatais. A própria Santa Sé reconheceu a responsabilidade do processo inquisitorial na condenação que levou Giordano Bruno a uma morte atroz; João Paulo II também retomou o pedido de perdão pelo emprego de métodos não evangélicos em defesa da verdade e os papas seguintes vão na mesma direção. Esses reconhecimentos não apagam as vítimas, mas mostram que a crítica à coerção não precisa nascer fora da religião. Também existem recursos teológicos para resistir à dominação. A declaração conciliar Dignitatis humanae afirma a liberdade religiosa e a imunidade de coerção em matéria de fé. Na minha leitura dos Evangelhos, a recusa de Jesus à dominação entre os discípulos, em Marcos 10,42–45, e sua crítica aos dirigentes religiosos, em Mateus 23, colocam uma exigência semelhante: a autoridade precisa responder por sua relação com o serviço, a justiça e a vida concreta das pessoas.


Por isso, a pergunta sobre Aparecida não pode se limitar a quem disse ou deixou de dizer determinada frase, embora esclarecer os fatos continue indispensável. Precisamos perguntar que país está sendo preparado quando uma interpretação religiosa pretende definir quem pertence plenamente à nação e quem deverá viver nela sob suspeita. Defender a laicidade exige coerência: não basta rejeitar o privilégio da religião alheia enquanto se deseja instalar o da própria. O reconhecimento histórico de uma tradição não deve impor sua crença a todos, assim como o crescimento de outra não lhe concede o direito de tomar o Estado como extensão de seus templos. A liberdade de consciência precisa valer para católicos, evangélicos, adeptos de outras religiões e pessoas sem religião.


Não precisamos compartilhar a devoção a Aparecida para respeitar quem encontra nela consolo, memória e esperança, tampouco precisamos aderir ao protestantismo para defender a liberdade dos evangélicos. Precisamos reconhecer que o poder público pertence a uma sociedade plural e que nenhuma experiência de fé autoriza alguém a governar a consciência do outro. Talvez a idolatria mais perigosa deste debate apareça justamente onde se promete combatê-la: no instante em que o poder passa a receber a obediência devida ao sagrado, o líder se torna incontestável e o semelhante se converte em inimigo. Se uma religião precisa capturar o Estado para fazer sua verdade prevalecer, que confiança ainda conserva na força de sua própria palavra?


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