Hamnet — Quando a Vida Aprende a Falar com o Silêncio
Morte, luto e a arte como tentativa de permanência diante do indizível

Hamnet me tocou me maneira especial, talvez em razão dos temas, das provocações inconsciente. É um daqueles filmes que não se assiste apenas: atravessa. Dei 5 de 5 não por entusiasmo fácil, mas porque ele toca sem anestesia em temas como a morte, o luto, o sentido da vida e a pergunta radical sobre por que existimos.
Não é um filme sobre Shakespeare, ainda que ele esteja ali. É um filme sobre aquilo que antecede a palavra e que, muitas vezes, só a palavra tenta salvar depois: a perda. Hamnet não morre apenas como personagem; ele morre como possibilidade de futuro, como continuidade concreta da vida. E o filme compreende isso com uma delicadeza brutal: a morte de um filho não é apenas a ausência de alguém, é a ruptura do tempo.
O luto aqui não é tratado como processo terapêutico, nem como superação edificante. Ele é vivido como suspensão do mundo. Tudo continua, mas nada segue. O casal permanece de pé, mas algo neles foi arrancado. O filme entende uma verdade dura: quem perde um filho não volta a ser quem era, apenas aprende a existir de outro modo.
Há uma pergunta que atravessa toda a narrativa e que, para mim, é uma das mais potentes do cinema recente: onde está Hamnet depois da morte?
Essa pergunta não busca resposta objetiva. Ela habita o espaço da expectativa humana mais profunda: a de que a morte não seja o fim absoluto. O filme não escolhe uma resposta única. Ele mantém abertas as duas vias fundamentais do humano: a espiritual e a simbólica.
Hamnet pode estar em algum lugar além, e o filme respeita esse mistério sem dogmatizar, mas Hamnet também permanece na arte, no teatro, no gesto criador, no palco onde a ausência ganha forma. A obra de Shakespeare surge, então, não como triunfo do gênio, mas como tentativa desesperada e belíssima de continuar vivendo com o morto dentro de si.
O símbolo mais forte disso tudo, para mim, é o buraco escuro na árvore. Um vazio orgânico, silencioso. Um lugar para onde Hamnet retorna, e que depois reaparece no palco. A árvore e o teatro se espelham. Vida e arte se dobram uma sobre a outra. O buraco não é apenas ausência; é passagem, é útero invertido, é retorno ao ciclo. Tudo o que vive retorna de algum modo.
E então vem o final. “Resta o silêncio.”
Essa frase não é derrota, é maturidade existencial. Depois de todas as tentativas de explicação, de sentido, de redenção, resta aquilo que sempre esteve ali: o silêncio como último lugar do sagrado. Não o silêncio vazio, mas o silêncio que acolhe aquilo que a linguagem não dá conta.
Hamnet é um filme sobre o destino, não como fatalismo, mas como ciclo. Sobre a vida que insiste, mesmo ferida. Sobre a arte que nasce não do excesso, mas da falta. E sobre o amor que continua existindo mesmo quando não há mais ninguém para amar do modo como antes.
É um filme que não consola, mas acompanha.
E, às vezes, isso é tudo o que precisamos para continuar.
Ivo Fernandes



