Quando a moral vira máscara

Ivo Fernandes • 18 de setembro de 2026

fé, poder e a obscenidade dos que condenam

Nunca fui um moralista. Isso não significa que eu não tenha princípios ou que considere todas as escolhas humanas equivalentes. Significa, antes, que aprendi a desconfiar das normatividades que se apresentam como eternas, naturais e divinas, mas que, ao longo da história, serviram tantas vezes para vigiar corpos, domesticar desejos e preservar poderes. Minha compreensão ética frequentemente se distancia dessa moral sufocante, não por desprezo à responsabilidade, mas porque ética e moralismo não são a mesma coisa. A ética pergunta pelo cuidado, pela liberdade, pelo consentimento, pela responsabilidade e pelas consequências de nossos atos; o moralismo, em geral, prefere controlar a vida do outro, sobretudo quando esse outro ama, deseja, crê ou existe de uma maneira que ameaça a ordem estabelecida.


Por isso, nunca me incomodou a liberdade de ser das pessoas, inclusive sua liberdade sexual, desde que vivida entre adultos, com consentimento, responsabilidade e respeito. O que sempre me incomodou profundamente foi outra coisa: a postura daqueles que sufocam jovens com proibições que eles mesmos não cumprem; que transformam púlpitos em tribunais, a intimidade alheia em espetáculo e o medo em instrumento de governo; que condenam publicamente aquilo que praticam secretamente e, não raro, fazem ainda pior, porque acrescentam ao próprio ato a violência da culpa imposta aos demais.


Essa denúncia não começou comigo e tampouco nasceu na modernidade. Está no coração do Evangelho. No capítulo 23 de Mateus, Jesus acusa os escribas e fariseus de amarrarem fardos pesados sobre os ombros das pessoas sem disporem-se a movê-los. Chama-os de hipócritas e os compara a sepulcros caiados: belos por fora, mas cheios de impureza por dentro. É importante perceber onde recai a severidade dessa crítica. Jesus não dirige suas palavras mais duras aos corpos considerados impuros pela religião, mas aos administradores da pureza; não aos pecadores confessos, mas aos especialistas em produzir culpa; não aos marginalizados, mas aos que monopolizavam a interpretação da Lei enquanto dela faziam um instrumento de prestígio e dominação.


Também na narrativa da mulher acusada de adultério, em João 8, a cena expõe a assimetria própria do moralismo: uma mulher é arrastada para o centro, seu corpo é convertido em prova pública do pecado, enquanto o homem envolvido no mesmo ato desaparece da história. Os acusadores querem a pedra; Jesus devolve-lhes o espelho. A frase sobre quem não tem pecado atirar a primeira pedra não elimina a responsabilidade, mas recusa a ordem hipócrita na qual alguns se autorizam a punir como se estivessem fora da condição humana. A religião, quando fiel ao Evangelho, deveria interromper o apedrejamento. Quando capturada pelo poder, passa a escolher as vítimas e a distribuir as pedras.


A psicanálise ajuda a compreender por que o excesso de proibição não produz necessariamente sujeitos mais éticos. Freud percebeu que a civilização exige renúncias pulsionais e que essa renúncia participa da formação da culpa. Entretanto, quanto mais feroz se torna o supereu, mais ele pode exigir novas renúncias sem jamais se satisfazer. A instância que ordena pureza não apenas proíbe; ela também encontra uma satisfação obscura no ato de vigiar, humilhar e punir. Há um gozo na condenação, e talvez seja esse o segredo menos confessável de muitos discursos sobre os “bons costumes”.


Michel Foucault, por sua vez, mostrou que o poder moderno não atua apenas silenciando a sexualidade. Ele faz falar, classifica, interroga, examina e produz discursos intermináveis sobre o sexo. A obsessão moralista com a vida sexual dos outros não é sinal de que o desejo tenha desaparecido, mas de que ele foi capturado por uma máquina de vigilância. Quanto mais se anuncia a guerra contra o sexo, mais o sexo ocupa sermões, campanhas, vídeos, gabinetes e estratégias eleitorais. O objeto supostamente proibido torna-se o centro permanente da fantasia de quem o proíbe.


Não se trata de estabelecer uma relação simplista segundo a qual toda proibição necessariamente produz a prática proibida. Seria intelectualmente desonesto e clinicamente ingênuo. Trata-se de reconhecer que a repressão moral, quando não é acompanhada de elaboração subjetiva, responsabilidade e verdade, favorece a cisão: de um lado, a personagem pública da pureza; de outro, uma vida clandestina entregue ao segredo, à compulsão e, por vezes, ao abuso. A hipocrisia não nasce do desejo, mas da impossibilidade de reconhecê-lo e responsabilizar-se por ele.


O Brasil vive um avanço preocupante de discursos que invocam Deus, a família e os bons costumes como credenciais automáticas de idoneidade. Não é a fé que está em questão. A maioria das pessoas religiosas deste país vive honestamente, trabalha, cuida de seus filhos, ajuda seus vizinhos e encontra na comunidade uma fonte real de consolo e solidariedade. Seria injusto transformar milhões de evangélicos, católicos e membros de outras tradições em caricaturas de suas lideranças mais ruidosas. A crítica precisa ser precisamente o contrário disso: uma defesa das pessoas de fé contra os que exploram sua confiança.


O problema começa quando a linguagem religiosa deixa de oferecer sentido e passa a funcionar como salvo-conduto político; quando o líder acredita que pronunciar o nome de Deus o coloca acima da transparência, da lei e da crítica; quando a bênção se torna moeda, o culto vira palanque e a comunidade é tratada como curral eleitoral. Nesse momento, já não estamos diante da fé como experiência espiritual, mas de sua instrumentalização como tecnologia de poder.


As ciências sociais vêm acompanhando há anos a articulação entre religião, moralidade sexual e atuação política no Brasil. Estudos sobre a chamada “agenda moral” mostram que temas ligados a gênero, sexualidade, família e reprodução foram convertidos em importantes mecanismos de mobilização eleitoral. Isso não significa que toda participação religiosa na política seja ilegítima, pessoas religiosas são cidadãs e têm direito à esfera pública, mas evidencia uma estratégia recorrente: enquanto o debate se concentra em pânicos morais, desaparecem do altar questões evangélicas muito mais incômodas, como a fome, a desigualdade, a exploração do trabalhador, o racismo, a violência contra os pobres e a acumulação obscena de riqueza.


É nesse contexto que investigações recentes envolvendo o Banco Master e uma unidade da Igreja Batista da Lagoinha exigem atenção pública, prudência jurídica e coragem ética. Segundo documentos atribuídos ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras e divulgados pela imprensa, a conta da unidade Lagoinha Belvedere teria movimentado R$ 57,1 milhões entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, com operações consideradas atípicas; parte relevante dos lançamentos teria relação com Fabiano Zettel, pastor e empresário ligado à unidade e cunhado de Daniel Vorcaro. A organização Lagoinha Global afirmou desconhecer os valores e sustentou que as unidades locais possuem autonomia financeira. O caso está sob investigação, e investigação não equivale a condenação. Ainda assim, os dados noticiados são graves e reclamam esclarecimento, transparência e responsabilização de quem quer que tenha cometido ilícitos.


Essa distinção é indispensável. Não devemos reproduzir o método dos moralistas, que primeiro condenam e depois procuram provas. Mas também não podemos aceitar que o vocabulário da perseguição religiosa seja usado para impedir perguntas legítimas. Fiscalizar movimentações financeiras, apurar possíveis crimes e exigir prestação de contas não é perseguir a fé; é proteger fiéis, instituições e a própria liberdade religiosa contra aqueles que podem tentar transformá-las em escudo para negócios privados.


O verdadeiro escândalo não é que pessoas religiosas sejam humanas, falhem ou pequem. O escândalo está em reivindicar autoridade para governar a consciência alheia enquanto se foge de toda prestação de contas sobre a própria conduta; em exigir sacrifícios dos pobres enquanto se constroem impérios pessoais; em chamar a diversidade de ameaça à família enquanto se toleram, nos círculos do poder, corrupção, violência e mentira. A seletividade revela o projeto: não se quer moralidade, quer-se controle.


Dostoiévski compreendeu essa perversão com uma força quase profética. Em “O Grande Inquisidor”, capítulo de Os irmãos Karamázov, Cristo retorna à Sevilha no tempo da Inquisição. É reconhecido pelo povo, mas preso pela própria instituição que afirma representá-lo. O inquisidor sabe quem ele é e, justamente por isso, quer silenciá-lo: a liberdade oferecida por Jesus ameaça um sistema religioso sustentado pelo milagre administrado, pelo mistério controlado e pela autoridade. Cristo tornou-se inconveniente para o cristianismo do poder.


A pergunta de Dostoiévski continua aberta entre nós: se Jesus entrasse hoje em certos templos e gabinetes, seria acolhido ou expulso? O homem que não tinha onde reclinar a cabeça teria lugar entre pregadores de prosperidade milionária? Aquele que colocou uma criança no centro, tocou leprosos, sentou-se com gente considerada indigna e anunciou boas notícias aos pobres seria convidado para o palco ou acusado de comunista, subversivo e inimigo da família? Aquele que recusou os reinos deste mundo aceitaria fotografar-se ao lado dos poderosos em troca de influência?


Na narrativa das tentações, Jesus rejeita transformar a fome em espetáculo, recusa atirar-se do templo para provar poder e não se ajoelha diante de Satanás em troca dos reinos do mundo. Boa parte do cristianismo político contemporâneo parece ter refeito esse percurso em sentido inverso: converte a necessidade do povo em capital eleitoral, transforma o sagrado em espetáculo permanente e se ajoelha diante do poder terreno, desde que lhe sejam oferecidos cargos, verbas, imunidade e acesso aos palácios.


Por isso, não tenho dúvidas de que, se Cristo retornasse, seria novamente ameaçado pelos que falam em seu nome. Não porque todos os cristãos tenham se corrompido, nem porque toda igreja tenha se tornado um mercado, mas porque o Evangelho continua sendo intolerável para qualquer poder que use Deus para dominar consciências. Jesus talvez fosse condenado outra vez, não pelos ateus que recusam crer, mas pelos religiosos que já decidiram no que Deus deve acreditar.


Ainda assim, não escrevo movido pelo desprezo à fé. Escrevo porque creio que existe uma fé digna de ser preservada: a fé das mulheres que sustentam comunidades inteiras; dos pastores que vivem com simplicidade e servem sem enriquecer; dos jovens que recusam o ódio disfarçado de doutrina; das igrejas que alimentam, acolhem e protegem; dos cristãos que não trocaram o Evangelho por um projeto de poder. Minha crítica não se dirige ao povo evangélico, mas aos que o enganam; não se volta contra o cristianismo, mas contra sua captura por uma máquina político-econômica de medo, dinheiro e ressentimento.


Talvez a resistência comece por algo aparentemente simples: voltar a ler os Evangelhos sem as lentes dos influenciadores da fé e sem as legendas dos cabos eleitorais de Deus. Ler e perceber que Jesus jamais pediu a defesa abstrata da “família” enquanto famílias concretas passavam fome; que não organizou campanhas contra minorias; que não ensinou seus discípulos a acumularem fortunas; que não confundiu santidade com aparência; que não chamou crueldade de coragem nem mentira de guerra espiritual.


É preciso recuperar uma ética cristã que não se ocupe primeiro do quarto alheio, mas da mesa vazia; que não pergunte obsessivamente quem alguém ama, mas por que tantos não são amados, protegidos e reconhecidos em sua dignidade; que não faça da culpa um negócio nem do medo uma estratégia eleitoral. Uma fé que tenha menos pedras nas mãos e mais coragem para enfrentar os vendilhões do templo.


Não precisamos de novos guardiões da moral. Precisamos de comunidades capazes de sustentar a verdade, a liberdade, o cuidado e a justiça, inclusive quando isso exige confrontar seus próprios líderes. Se ainda restam pessoas que não abandonaram o Mestre para seguir os donos do poder, que encontrem força para resistir. Porque, em tempos nos quais as trevas aprenderam a citar versículos, talvez a luz comece justamente no gesto de retirar de Deus as máscaras que os homens lhe impuseram.


Ivo Fernandes

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