A pergunta insubmissa

Ivo Fernandes • 6 de junho de 2026

Como Vai Você, Minha Libido?

Todos os dias, em um vilarejo ensolarado da Provença, um homem idoso abre os braços diante do vento e lança ao invisível uma pergunta que é, em si, um rito de recomeço: “Minha libido, como você está?”


No filme Meu Nome é Agneta, que me atravessou como um espelho nítido, Einar evoca essa força primeva, a força da criação, da continuidade e do desejo que, como ele bem diz, “habita o coração e o entre as pernas”. Ao testemunhar esse rito, algo em mim assentiu imediatamente. Eu já o inseri na minha própria vida. Diante do espelho ou do vento e do mar, interrogar a própria libido é o ato mais radical de escuta que um homem pode exercer sobre si mesmo. É saber se ainda estamos vivos, ou se estamos apenas durando.


Foi a resposta a essa pergunta que mudou os rumos de Einar, de Agneta e, fundamentalmente, os meus. Na Provença, eles descobriram que envelhecer não é apagar-se; é ter a coragem de trocar asas cinzas por asas coloridas. Eles deixaram filhos, sem jamais deixar de amá-los, deixaram as amarras do cotidiano e foram dançar. E quando seus companheiros não quiseram acompanhá-los, eles foram sós. Afinal, nunca se recusa um pedido para dançar, porque a dança não exige passos sincronizados, mas apenas o movimento livre e soberano do corpo respondendo ao chamado do desejo.


É a partir dessa mesma libido, esse fluxo incontrolável de vida, que eu pronuncio o meu nome: Ivo Fernandes. Assumir esse nome significa a decisão irrevogável de abraçar toda a minha trajetória e todas as versões que já criei dela. Compreendo hoje, com a lucidez da poesia e da clínica, que muitas dessas versões foram apenas fantasias que inventei para preencher os vazios que me forjaram. Assumi meus desejos e meus medos, minhas fraquezas e virtudes. Assumi meu próprio corpo, inclusive quando o recubro com recursos estéticos; tais adornos são apenas o meu modo de brincar com a realidade.


Minha ideologia é o meu próprio pensar, gerado pelo calor desse desejo. Minha ética é o eterno devir, a impermanência viva. Minha urgência é o momento que se apresenta, absoluto. Escolher-me, portanto, não foi um ato egoísta; foi o maior gesto de amor, a mim e ao próximo, pois só quem transborda de si pode oferecer algo ao outro.


Nesse nome, Ivo Fernandes, não cabem as gavetas estreitas de gênero, sexo, raça ou religião. Ele é vasto demais para definições. Ele é o espaço que me permite, simplesmente, dançar por todas as danças que a vida propuser.


Meu corpo é livre, meu amor é livre, meu ser é livre. Já não me resta tempo nem paciência para me preocupar com o julgamento alheio. Agneta mantinha seus prazeres ocultos em um quarto fechado por medo do mundo, antes de conhecer Einar; eu escolhi abrir as janelas.


Chego aos meus 45 anos. Se a sorte me acompanhar, estou exatamente na metade da jornada. E o propósito que estabeleço para a continuidade dessa vida é inegociável: potencializar a minha alegria, sem jamais mascarar as minhas dores. A dor também é matéria da vida, mas a soberania pertence ao entusiasmo.


Por isso, como os libertos da Provença, quero me reunir todas as sextas-feiras, pontualmente às dezessete horas, para saudar os encontros e celebrar o tempo que me cabe, seja qual for a minha idade. Aos que já sabem o caminho, a minha casa e o meu peito continuam abertos, exceto para aquilo que me roube a potência da alegria.


O vento já passou e a pergunta foi feita. A minha libido vai bem, obrigado.


E a sua? Vamos tomar uma champanhe e conversar sobre isso?


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