A Minha Coleção de Horas

Ivo Fernandes • 28 de maio de 2026

Existe uma diferença brutal entre viver o tempo e apenas atravessá-lo

Sempre gostei de colecionadores, embora jamais tenha conseguido ser um de fato. Minha paciência nunca serviu para catalogar objetos em estantes, guardar moedas antigas ou organizar pequenas relíquias contra a passagem do tempo. Tudo isso sempre me pareceu uma tentativa delicada e inútil de impedir o desaparecimento das coisas. Mas algo mudou quando completei quarenta e cinco anos em Pontal do Maceió. Entre os presentes recebidos naqueles dias de celebração, um trecho de um livro de Socorro Acioli atravessou minha percepção de maneira definitiva e acabou se tornando tema de uma das noites: coleção de horas. Talvez por excesso de vida, talvez pelo medo de perdê-la cedo demais, percebi que passei os últimos anos aprendendo exatamente isso, a colecionar instantes.


Não falo das horas medidas pelo relógio, porque essas o tempo leva sem pedir licença. Falo das horas que permanecem. Daquelas que, mesmo depois de acabadas, continuam habitando o corpo como um eco da existência. Horas que não terminam quando acabam, porque seguem retornando em silêncio, feito maré insistente batendo outra vez na areia da memória. Existe uma diferença brutal entre viver o tempo e apenas atravessá-lo, e talvez uma das maiores tragédias da vida contemporânea seja justamente essa incapacidade crescente de permanecer inteiro dentro da própria experiência.


A maior parte das pessoas já não vive de fato. Administra agendas, responde notificações automáticas, corre atrás de metas abstratas e dorme com o cansaço pesado de um dia que sequer conseguiu sentir. Nosso tempo transformou a existência numa sucessão de tarefas úteis, como se viver fosse apenas produzir, consumir e evitar o vazio. Mas consumismo não é presença, movimento não é sentido. Há gente correndo há décadas sem jamais sair verdadeiramente do lugar.


Talvez por isso os encontros reais tenham se tornado tão raros. Encontrar alguém exige tempo, e o tempo parece ter se tornado o único luxo imperdoável da modernidade. Enquanto celebrava meu aniversário entre os dias vinte e três e vinte e quatro de maio, olhando os amigos espalhados entre risos, bebidas, músicas, excessos e silêncios atravessados pela madrugada, pensei muito nisso. Não exatamente sobre idade, essa matemática aplicada ao corpo, mas sobre as horas que permanecem. Sobre aquilo que continua vivo dentro da gente mesmo depois que a noite termina.


Naquelas horas ficou ainda mais evidente algo que sempre me impressiona profundamente: existem pessoas que passam anos ao nosso lado sem jamais nos encontrar de verdade, enquanto outras nos atravessam para sempre em poucos instantes. A psicanálise talvez diga que isso acontece porque nunca encontramos o outro em sua totalidade, mas aquilo que nele toca alguma região esquecida do nosso desejo. O amor, a amizade, o afeto e até certos fascínios inexplicáveis são formas de reconhecimento inconsciente. Nunca amamos apenas uma pessoa, amamos também aquilo que ela desperta em nossa falta, em nossas memórias, em nossos vazios e em nossas tentativas de sentido. E ainda assim seguimos buscando encontros, mesmo sabendo da fragilidade inevitável de todos eles.


Porque o ser humano é essa criatura estranha que sabe que tudo passa, sabe que nenhum abraço consegue deter o tempo, sabe que as relações são frágeis e que a vida escapa o tempo inteiro, mas insiste em sentar à mesa, abrir mais uma garrafa, contar outra história e fazer planos para o próximo ano. Talvez seja exatamente essa insistência que nos salve. Existe algo profundamente humano em continuar celebrando mesmo diante da consciência da finitude.


Colecionar horas não significa tentar aprisionar o tempo, mas reconhecer que algumas experiências escapam completamente da lógica da utilidade. Há horas que não servem para absolutamente nada e exatamente por isso se tornam eternas. Uma conversa sem rumo à beira-mar, um corpo deitado na areia, amigos cantando desafinados no meio da madrugada, o vento atravessando a varanda, o silêncio que permanece logo depois do riso, a sensação inexplicável de habitar plenamente o lugar onde se está. Nenhum desses instantes produz dinheiro, currículo ou status social, mas todos eles produzem algo talvez muito mais raro hoje em dia: sentido.


E talvez o sentido seja uma das últimas experiências verdadeiramente revolucionárias que ainda nos restam. Durante muito tempo pensei que maturidade significava estabilidade, controle emocional e ausência de crise. Hoje desconfio profundamente disso. Talvez amadurecer seja apenas aprender quais horas merecem ser guardadas e quais excessos já não valem o preço da alma. A juventude costuma desejar o infinito e corre atrás da intensidade como quem tenta escapar da morte através do excesso de vida. Depois de certa idade, e talvez depois de sobreviver a mim mesmo algumas vezes, aprendo lentamente a compreender outra coisa: não precisamos de todas as horas do mundo, precisamos apenas de algumas que sejam inteiramente verdadeiras.


Porque a verdade não está na duração das coisas, mas na profundidade com que elas nos atravessam. Há encontros de uma noite que permanecem décadas inteiras dentro de nós e relações de décadas que nunca chegaram realmente a acontecer. Há pessoas que nunca mais veremos e que continuam morando em nossa memória com uma presença quase física. E há outras que vemos todos os dias, mas que já partiram faz muito tempo. O tempo não é cronológico, o tempo é afetivo.



Talvez por isso certos lugares se tornem sagrados, certas músicas nos desmontem sem explicação, certos perfumes façam o passado reaparecer inteiro dentro do peito. Não lembramos apenas dos fatos, lembramos da sensação exata de existir naquele instante. Fortim tornou-se isso para mim, uma espécie de território simbólico onde deposito minhas coleções de horas e onde vou deixando versões de mim espalhadas entre o mar, os amigos, os desejos, os excessos e os silêncios.


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