Além da Paixão

Ivo Fernandes • 14 de setembro de 2024

 Amor Como Aceitação da Falta

A célebre frase de Jacques Lacan, "Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer", nos leva a refletir sobre as dinâmicas complexas do amor, especialmente sob a ótica da psicanálise. Lacan aborda o amor como uma manifestação que se liga à falta, tanto do sujeito quanto do outro, e que permeia nossas relações afetivas. No entanto, o amor atravessa diferentes fases e formas, e é essencial distinguirmos o "amor infantil" aquilo que pode ser considerado um amor maduro e saudável.


O Amor Infantil e a Busca pelo Outro


Em sua obra As formações do inconsciente , Lacan nos diz que "a solução fundamental, buscada por todos os humanos, do início ao fim da existência, é ter um Outro todo seu. E isso é o que se chama amor". Essa busca pelo Outro como objeto de completude caracteriza o que podemos chamar de amor infantil, uma forma de apego que não permite a própria falta e projeta no parceiro a expectativa de preenchimento.


Esse amor infantil se relaciona com a fantasia de que o outro pode suprir todas as necessidades emocionais do sujeito. É uma fixação no parceiro como uma fonte de prazer ou como uma solução para o vazio interno. Quando essa projeção é frustrada — e ocorrerá, pois o outro nunca é capaz de nos completar plenamente — surgem sentimentos de raiva, frustração e até excluídos. Esse ciclo de idealização e decepção marca a fase imatura do amor, onde o sujeito ama o que o outro pode proporcionar e não o outro em si.


O Amor Maduro: A Palavra e a Partilha


O amor maduro, por outro lado, exige a renúncia a essa fantasia de completude. Lacan sugere que a psicanálise se dedique ao trabalho de entender como se pode amar o outro para além de si mesmo. Ou seja, amar de forma saudável implica deixar de lado a ideia de que o outro é uma extensão de nós mesmos ou uma solução para nossas carências. O amor maduro envolve uma transição do corpo para a palavra, de modo que o laço amoroso se desenvolve na comunicação que reconhece as faltas de ambos.


Esse tipo de amor, baseado na palavra, é uma metáfora de algo maior: uma forma de simbolização da própria falta. Amar maduramente é entender que o outro também é incompleto e que o amor é um espaço de troca e partilha, onde ambos os sujeitos podem se desenvolver juntos, aceitando suas imperfeições e limites.


O Amor Entre o Real e o Simbólico


Lacan ainda nos diz que a sabedoria não serve para nada no amor. O amor é um "dizer que se dirige ao saber do inconsciente e não tem nada a ver com a verdade". Ele é o laço essencial entre o real e o simbólico, e, como tal, sua finalidade é o puro fracasso. O amor, então, não se "escreve" de maneira definitiva, pois é sempre incompleto e precisa de verificação constante. É nesse sentido que Lacan fala sobre o amor como um campo de incertezas e de contradições, onde a falta de conhecimento sobre as regras do jogo amoroso articula os nós do relacionamento.


Por isso, Lacan certa vez chamou o amor de "odioenamoramento", destacando como, muitas vezes, o amor obstina-se em tudo o que é contrário ao bem-estar do outro. Amar não é apenas uma experiência de prazer; ele carrega dentro de si um confronto com a própria falta, com o outro e com a imperfeição. Essa tensão constante é o que faz do amor um território de conflitos e, ao mesmo tempo, de crescimento.


O Amor e o Objeto a


Lacan também descreveu o amor como uma relação com algo além do parceiro: "Eu te amo, mas porque inexplicavelmente amo em ti algo mais que tu, o objeto a minúsculo, eu te mutilo". Isso significa que o amor nunca é dirigido exclusivamente ao outro como sujeito completo. Não amamos outra coisa que ele representa para nosso inconsciente — o objeto a , a causa de nosso desejo. Por isso, o amor também envolve certa mutilação, pois projetamos noutras nossas fantasias, e essa projeção pode distorcer a relação real que temos com ele.


Nesse sentido, o principal parceiro de alguém não é o outro, mas o próprio inconsciente. O sintoma amoroso, ou seja, a maneira como nos relacionamos com o parceiro, é sempre mediado pelo desejo inconsciente. Miller afirma que o amor é o que diferencia o parceiro de um puro sintoma, sendo "a função que projeta o sintoma no exterior". O amor, então, coloca em jogo o inconsciente, fazendo com que o parceiro se torne mais do que um simples reflexo de nossos desejos, mas alguém com quem possamos compartilhar nossa falta.


Conclusão


O amor, segundo Lacan, é um laço complexo entre o real e o simbólico, permeado pela falta e pelo desejo. Ele não busca a verdade ou a completude, mas uma relação com o outro que envolve a aceitação das imperfeições e a comunicação de nossas falhas. O amor infantil, centrado na fantasia de completude, precisa dar lugar a um amor maduro, que permite a impossibilidade de "possuir" o outro ou de estar completamente satisfeito por ele.


Assim, amar é lidar com a falta — tanto a nossa quanto a do outro — e aceitar que o amor é um processo contínuo de negociação e crescimento, sempre atravessado pelo inconsciente e sua critério. Amar é, portanto, uma metáfora da própria condição humana: incompleta, imperfeita, mas, ainda assim, profundamente significativa.

Bibliografia


  1. Lacan, Jaques. As formações do inconsciente . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
  2. Lacan, Jaques. Seminário 8: A Transferência . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.
  3. Lacan, Jaques. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
  4. Lacan, Jaques. Escritos . Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
  5. Miller, Jacques-Alain. Elucidação do Seminário de Lacan sobre a Ansiedade . Verso Books, 2003.


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